Governo “comunista” concentrando mais renda num dos países que já tem uma das maiores concentrações no mundo

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Nas redes sociais, dominadas pela extrema direita, todo dia ocorre um 7 x 1 entre os que possuem saudades da monarquia mesmo sem ter vivido nela e o governo supostamente comunista que joga um jogo perdido, sempre no campo do adversário, com regras obscuras (algorítmos) arbitradas pelo adversário.

Sem querer defender grego nem troiano, qualquer um sabe que um dos princípios que fazem parte das bases do comunismo é justamente ter como fim uma menor disparidade financeira, mas, o próprio presidente do Banco Central indicado pelo presidente “comunista” aumentou ainda mais a taxa de juros com a desculpa de combate à inflação, privilegiando quem já tem bastante dinheiro e lucra “vendendo dinheiro”, como os bancos. Se a taxa Selic tão alta tem algum lado bom, pode ser somente o desincentivo ao endividamento, movimento contrário ao dos primeiros governos Lula, que incentivou milhões de brasileiros a contrair dívidas.

Leia a matéria com Luana Ibelli entrevistando o economista Paulo Nogueira Batista Jr, que foi diretor-executivo no FMI em Washington:

Luana:O Comitê de Política Monetária, o COPOM, decidiu elevar a taxa básica de juros em um ponto percentual. Com isso, a Selic passa de 12,25% ao ano para 13,25% ao ano. Essa foi a primeira reunião com Gabriel Galípolo na presidência do Banco Central. Ele foi indicado pelo presidente Lula da Silva para a vaga antes ocupada por Roberto Campos Neto. A gestão de Campos Neto foi muito criticada pelo governo Lula por manter a Selic em patamares elevados. A justificativa para o novo aumento foi a inflação em alta. O COPOM prevê uma nova alta de um ponto percentual na próxima reunião do comitê. Em coletiva de imprensa na manhã de hoje, Lula comentou sobre a alta da taxa de juros.

Vamos ler o que ele (Lula) disse:

“Uma pessoa que já tem a experiência de lidar com o Banco Central, como eu tenho, tem consciência de que, num país do tamanho do Brasil, com a responsabilidade do Brasil, o presidente do Banco Central não pode dar um cavalo de pau num mar revolto. De uma hora para outra, já estava praticamente demarcada a necessidade da subida dos juros pelo outro presidente, e o Galípolo fez aquilo que ele entendeu que deveria fazer. Nós temos consciência de que é preciso ter paciência. Eu tenho 100% de confiança no trabalho do presidente do Banco Central. Eu tenho certeza de que ele vai criar as condições para entregar ao povo brasileiro uma taxa de juro menor no tempo em que a política permitir que ele o faça.”

Para comentar sobre a nova alta e se essa medida realmente é eficaz contra a inflação, eu converso agora com o economista Paulo Batista Nogueira Júnior. Paulo, muito obrigada pela presença aqui no Central do Brasil. Para começar, já te dou um desafio: aumentar os juros é um caminho eficaz para conter a inflação? E não só isso, é o único caminho? Quais seriam as alternativas? Eu sei que é complexo, mas se a gente puder explicar para o nosso público, seria muito bom.

Paulo: Boa tarde, Luana. Duas perguntas. Então, a primeira é: sim, a resposta é sim. Quais são os canais através dos quais uma política de juros altos pode derrubar a inflação? Um é provocando uma valorização cambial, atraindo capitais e provocando uma apreciação do real. Isso é um caminho até bem-vindo no momento, porque o dólar se depreciou demais. O outro, mais doloroso e mais comum também, é comprimir a demanda na economia e, com isso, desacelerar os preços. Esse segundo caminho gera desemprego, gera recessão no limite. Então, é algo que o Banco Central procura evitar, tenta combater a inflação minimizando os estragos sobre produção e emprego. Quanto aos outros instrumentos, sim, há outros instrumentos. Por exemplo, um foco da inflação hoje, como você sabe, é o preço dos alimentos, que está subindo mais do que a inflação geral. E o governo pode atuar sobre os preços dos alimentos, expandindo a oferta de produtos agrícolas. E o câmbio já vai ajudar também, porque o câmbio vai diminuir os preços dos produtos agrícolas que são importados ou exportáveis. Então, em breve resumo, assim eu responderia às suas perguntas complexas.


Luana: Paulo, olha, a gente acabou de ver a fala do presidente Lula comentando esse aumento. Até março, a gente deve chegar em 14,25%, que é uma taxa alta, quase indo aí para os 15%. E pelo que a gente percebe, a estratégia do governo e de Galípolo, que acaba de assumir esse desafio, é manter aí uma previsibilidade. O presidente fala em “cavalo de pau”, que talvez isso assustasse o mercado. Queria te ouvir também sobre essa estratégia.

Paulo: Ah, tem razão, o presidente. Porque o Banco Central é um transatlântico, não se dá cavalo de pau em transatlântico. O Galípolo chega com a herança que foi o anúncio ainda no tempo do Roberto Campos, na última reunião do Comitê de Política Monetária de 2024, o compromisso de aumentar duas vezes a taxa de juro: nessa primeira reunião em um ponto e na próxima em um ponto também. Dificilmente o Galípolo pode mudar isso. Por quê? Porque ele foi parte dessa decisão. E se ele recuasse agora, sem ter muitos motivos, ele seria visto como fraco. Então, eu tenho assim uma previsão bastante banal essa que eu vou fazer, mas ele vai aumentar novamente em um ponto percentual. Ele não, o comitê vai aumentar novamente um ponto percentual a taxa de juro, que vai ficar, como você disse, num nível extraordinariamente alto, com a inflação digamos de 5%, uma taxa de juro básica nominal da ordem de 14%, dá uma taxa de juro real de 7%, que, se não é a mais alta do mundo, é uma das mais altas do mundo. Isso tem muitas consequências negativas também para a economia e para a sociedade.

Luana: E o próprio presidente Lula também já tinha adiantado que taxa alta de juros é um dos motivos de embate com o antigo presidente. Para a frente, a gente tem possibilidade de baixar essa taxa de juros ou não tem?

Paulo: Tem, sim. Depende da forma como vai atuar o governo e o Banco Central, em especial a partir do segundo trimestre deste ano. Você tem um horizonte mais livre, porque não tem mais o compromisso de aumentar. Então, o Banco Central pode testar a temperatura da água, começar a reduzir os juros gradualmente. Porque, se não fizer isso, Luana, o que vai acontecer? A pressão sobre as finanças públicas vai ser enorme, porque isso afeta o custo da dívida. O juro alto afeta a renda, que vai ficar sendo concentrada, porque quem se beneficia do juro alto é a minoria da população rica. E você vai ter também o efeito que nós já comentamos sobre o nível de atividade, que vinha crescendo bem, da ordem de 3,5% nos primeiros anos do governo Lula. E tem um quarto ponto, Luana, menos comentado, que é o seguinte: o que significa juro alto? Significa botar dinheiro na mão daqueles que têm facilidade para remeter recursos para o exterior, os ricos de novo. E, portanto, é uma fonte de vulnerabilidade da economia, não só aumentar a dívida pública, como se comenta, mas também aumentar o dinheiro, a liquidez na mão daqueles que, a qualquer momento, saem do país, pressionando a taxa de câmbio, desestabilizando a economia. Então, eu confio que o Galípolo vai sim, consciente de que ele certamente está ciente de todos esses problemas, trabalhar para reduzir gradualmente, que seja, o juro a partir, digamos, de abril, maio desse ano (2025).

Luana: É uma das promessas até de campanha. Lula se elegeu falando muito sobre a importância de pesar mais para o lado dos mais pobres. E eu te pergunto: você vê possibilidade disso na prática, Paulo? Porque tem sido tão difícil essa queda de braço entre bancos e o mercado? Como que a gente pode também, de perspectiva daqui para a frente, em relação a isso?

Paulo: Ah, você lembrou bem uma promessa de campanha que era botar o rico no imposto de renda e o pobre no orçamento. O que está acontecendo com essa política de juros altos? O rico não só não está entrando ainda no imposto de renda, porque nenhuma medida importante, quase nenhuma, foi tomada até agora nesse sentido, como o rico está sendo colocado no orçamento com a política de juros. Porque o que significa política de juros? Aumentar um componente do gasto público, que é o juro. E o que é esse componente? É renda dos rentistas, é renda da classe média alta para cima. Então, o governo está concentrando renda, o que, na verdade, via juros, é o oposto do que ele deveria fazer. O Brasil é um país de renda superconcentrada, entre os países do mundo, é um dos que tem renda mais concentrada. Então, é contrário ao discurso de campanha e contrário à base social do governo atuar dessa maneira no âmbito da política de juros.

Luana: Pois é. Agora, o fato é que, independentemente da gente prever que essa taxa pode cair no futuro, até março, a gente vai ter, no mínimo, uma taxa de juros muito alta. E aí, Paulo, quais serão as consequências para a nossa população enquanto essa taxa se mantiver tão alta?

Paulo: Bem, o crédito fica mais caro. Crédito que é sempre caríssimo, sobretudo o crédito ao consumidor, na faixa livre, vai ser mais caro ainda. O que vai dificultar a compra de bens duráveis, a compra de passagens de avião, etc. O parcelamento vai ficar mais oneroso. Se, como se espera, a economia desaquecer muito, o desemprego, que vinha caindo bem, pode voltar a subir.

E você vai ter isso. Você vai ter uma situação em que o povo vive ainda na dificuldade, e os ricos vão ganhar mais ainda via juros do Banco Central. Então, não é uma situação sustentável. Nós todos queremos que o governo funcione bem, que o governo tenha sucesso. Eu torço muito pelo Lula, porque ele é nossa grande alternativa. Isso não tem nada a ver com PT ou não PT. Eu nem sou filiado ao partido, mas o Lula é a grande alternativa, quem nos livrou da extrema-direita e fará provavelmente isso também, eu espero, pelo menos em 2026. Então, está chegando no momento que o governo tem que já começar a preparar o terreno para a disputa eleitoral, e a pauta econômica e social vai ser um elemento importante, como sempre é.

Luana: Tá bem, Paulo, muito obrigada por essa entrevista e até uma próxima.

Paulo: Obrigado.


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